Nem a renda fixa escapou da volatilidade do mercado brasileiro nas últimas semanas. Títulos do Tesouro e fundos DI, que investem nestes tipos de ativo, encerraram setembro em queda, assustando investidores. É o caso dos títulos pós-fixados (LFTs), conhecidos como Tesouro Selic.

As LFTs com vencimento de setembro de 2022 a setembro de 2026, por exemplo, caíram 0,04% a 1,01% no mês passado, respectivamente, segundo dados da Economatica. É a segunda vez que isso acontece.
A primeira foi em maio de 2002, quando passou a valer a regra de marcação a mercado, contabilização dos papéis de um fundo com base em seu valor de mercado –antes, o investidor via o valor de aquisição dos títulos. A mudança assustou investidores e os levou a trocar fundos de renda fixa pela poupança, reduzindo a rentabilidade dos fundos, que tiveram que se desfazer de papéis para dar saída ao investidor. A grande pressão vendedora deixou a rentabilidade dos títulos naquele mês negativa.

Além disso, as LFTs vinham de forte queda com o risco fiscal pré-eleições presidenciais, que levaram Lula ao seu primeiro mandato. Conforme o petista crescia nas pesquisas, investidores cobravam mais caro para financiar o governo em títulos de vencimento a partir de 2003, por temores à política econômica que seria adotada no novo governo. No ano seguinte, porém, os ativos dos fundos se ajustaram conforme o governo Lula mantinha as políticas monetária e fiscal.

Rendimento negativo dos títulos do Tesouro é raro, mas possível porque os títulos são negociados no mercado, como ações ou soja. E, quanto maior a oferta para um demanda constante, menor o preço, mesmo em títulos de renda fixa. Em setembro, o Tesouro Nacional realizou leilões destes papéis, que tiveram baixa procura, em especial a LFT. Em um deles, o órgão vendeu 53% do lote inicialmente planejado de 500 mil papéis e, em outro, apenas 18% de um lote de tamanho semelhante.

Por estar atrelado à taxa básica de juros, hoje na mínima histórica de 2% ao ano, este título tem um rendimento real (descontado da inflação) negativo -segundo a previsão do mercado, o IPCA de 2020 será de 2,12%, o que, naturalmente, reduz sua demanda.

Além disso, o aumento do risco fiscal com o Renda Cidadã, substituto inflado do Bolsa Família, levou a uma alta nos juros futuros -taxas esperadas pelo mercado nos próximos meses e anos. Estas taxas são a principal referência para os juros liberados atualmente, mas cuja quitação ocorrerá no futuro. Com a perspectiva de elevação do déficit fiscal e quebra do teto de gastos, o investidor cobra mais caro para emprestar para o governo, elevando a remuneração dos títulos do Tesouro.

Segundo Bruno Funchal, secretário do Tesouro, o Brasil não conta com espaço para errar na gestão das contas públicas no pós-pandemia e a elevação recente dos prêmios de risco na curva de juros é um alerta nesse sentido.
“A gente não tem espaço para errar. A gente precisa andar com as reformas e os preços refletem justamente a situação. É justamente um alerta. O que a gente tem visto na dinâmica ao longo das últimas semanas é um sinal de que você tem risco, você tem incertezas em relação aos próximos eventos”, disse Funchal entrevista à agência de notícias Reuters no fim de setembro.

Quanto maior o juro do título, menor o valor deste papel, em uma relação inversamente proporcional. Para comprar o Tesouro Selic, por exemplo, o investidor pediu ao governo uma taxa maior do que os 2%, gerando um spread -diferença entre taxas de captação e remuneração. Essa remuneração mais elevada levou a uma queda no preço do papel.
O Tesouro Selic 2025, por exemplo, está com uma rentabilidade anual de Selic (2%) + 0,3083%, o maior spread desde sua emissão, com investimento mínimo de R$ 105,68. Títulos prefixados e atrelados ao IPCA com vencimento a partir de 2023 também apresentam rendimentos negativos em setembro e iniciaram outubro em queda.

“As taxas [dos títulos do Tesouro] oscilam conforme o risco macroeconômico de aumento de juros e, agora, há um prêmio de risco embutido, que é maior conforme mais longo é o vencimento”, diz Marcelo Lara Nogueira, planejador financeiro CFP pela Planejar.

O especialista aponta que o movimento, porém, é atípico e que os preços dos títulos devem se normalizar, recuperando o valor perdido. “É importante o investidor não se assustar, apesar desta oscilação não ser normal. Estamos passando por um momento desafiador, com confusão na mensagem do governo, que gera oscilações no mercado. Pode piorar, mas é de se esperar que volte a normalidade”.

Já Daniel Miraglia, especialista em mercados globais da Omninvet, vê um longo caminho até que o risco diminua. “A questão fiscal e a dinâmica da dívida não são assuntos que devem ser resolvidos em curto espaço de tempo. E, com o juro real curto em território negativo e nas mínimas históricas, a pressão no mercado de LFT e mesmo na curva de juros pode continuar e até se intensificar.”

O mercado espera que as reformas administrativa e tributária tragam um alívio paras as contas públicas. Ambas, porém, devem ser discutidas em plenário apenas em 2021, conforme indicado pelo governo. “A dívida pública vai ser alta por muito tempo, mas ter um horizonte de melhora fiscal crível pelos investidores já melhoraria o mercado rapidamente”, diz Mauro Moreli, estrategista da Davos Investimentos.

Moreli e Nogueira apontam que, apesar da recente oscilação, o Tesouro Selic segue como a melhor opção para guardar a reserva de emergência -seis meses de gastos em caso de demissão, ou urgência médica. “Não há instrumento no qual você perca menos dinheiro do que no Tesouro Selic”, diz Nogueira. Apesar da rentabilidade negativa dos títulos públicos nas últimas semanas, o investidor só perde dinheiro se resgatá-los. Se os carregar até o vencimento, a rentabilidade será exatamente a mesma daquela anunciada na compra do papel. Da mesma forma, o investidor pode acompanhar o mercado de títulos e se desfazer do papel em um momento de alta.

Já Miraglia, da Omninvet, diz ser melhor guardar a reserva em CDBs (Certificado de Depósito Bancário]) de grandes bancos, com liquidez diária -dinheiro cai na conta no dia do resgate- que pagam 100% do CDI, para evitar o rendimento negativo caso seja necessário resgatar o título do Tesouro antes do prazo, por exemplo. Tais produtos, porém, costumam estar disponíveis apenas para o cliente alta renda. O varejo encontra opções acima do CDI em bancos menores e mais arriscados.

Segundo levantamento do buscador de investimentos Yubb, CDBs dos cinco grandes bancos (Caixa, Bando do Brasil, Bradesco, Itaú e Santander) têm rendimentos, em média, de 84,5% do CDI para aportes até R$ 10 mil. No segmento private, voltado ao público alta renda, aplicações até R$ 10 mil rendem, em média, 100% do CDI.
Em ambos os casos, a remuneração aumenta conforme o valor investido, podendo chegar, na média, a 93% do CDI no varejo e 105,5% no private. Para evitar perdas e impulsionar ganhos, o indicado é diversificar os investimentos conforme seu perfil de risco e objetivos. “Não existe nada sem risco”, diz Moreli.

O que são fundos DI?

São fundos com rentabilidade atrelada às taxas de juros. Os DI acompanham as taxas do mercado de CDI (Certificado de Depósito Interbancário), hoje a 1,90% ao ano. O CDI acompanha a Selic, sendo, geralmente, 0,1 ponto percentual abaixo da taxa básica de jutos. Os Fundos DI devem ter, no mínimo, 95% de sua carteira aplicada em títulos públicos do Tesouro Nacional ou em títulos de dívida de empresas privadas de baixo risco de crédito que seguem o CDI ou a Selic.

O que é marcação a mercado?

Na marcação a mercado, o gestor deve calcular diariamente quanto cada título do fundo está valendo, como se fosse vendê-lo naquele dia, e repassar o preço apurado ao valor da cota, proporcionalmente ao seu peso no portfólio e prazo de vencimento. Sem esse procedimento, o rendimento da aplicação pode estar desatualizado, refletindo um valor mais baixo ou mais alto do que é na realidade.

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