Diplomatas ligados à campanha do candidato democrata Joe Biden informaram a VEJA, sob condição de anonimato em função da continuidade da contagem de votos, que, se eleito, o futuro presidente americano quer “recomeçar do zero” as relações com o governo do presidente Jair Bolsonaro.

A agenda de Biden com o Brasil é pragmática e sem o tom ideológico dos tempos trumpistas: respeito à democracia, direitos humanos e meio ambiente e contraponto comercial à China, particularmente na questão do 5G.

Se confirmar no Colégio Eleitoral a vitória consagradora obtida nas urnas, Biden se tornará o presidente americano que melhor conhece o Brasil, tendo passado décadas como membro do Comitê de Relações Exteriores do Senado e depois anos como enviado especial de Barack Obama nas relações com o governo Dilma Rousseff.

Para os americanos, “recomeçar do zero” significa deixar para trás a inútil torcida pró-Trump de Bolsonaro e do uso da estrutura do governo brasileiro na fronteira com a Venezuela para imagens na campanha republicana na Flórida. Mas não altera a prioridade do meio ambiente como eixo das novas relações.

Tendo recebido apoio decisivo da ala ambientalista do partido democrata, Biden irá propor um pacote de ajuda bilionário para reduzir os indicadores de desmatamento e queimadas na Amazônia – aceno feito durante a campanha e recusado publicamente por Bolsonaro como uma “intervenção à soberania nacional”. Os diplomatas ligados ao partido democrata, no entanto, acreditam que a reação brasileira será menos emocional quando a proposta estiver sobre a mesa.

De acordo com os assessores, a relação dos EUA com o Brasil num eventual governo Biden vai depender de Bolsonaro. Se houver pragmatismo por parte dos brasileiros, com ações reais de combate ao desmatamento desenfreado e punição aos garimpeiros ilegais, metade dos problemas estarão resolvidos. Os militares brasileiros envolvidos no Conselho da Amazônia, dirigido pelo vice-presidente Hamilton Mourão, defendem a postura pragmática.

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Porém, se Bolsonaro e o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, mantiverem o estímulo oficial à desmatadores e a retórica xenófoba, o governo Biden já tem um Plano B. Neste caso, pode se confirmar o sonho do ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, de que o Brasil vá virar um “pária internacional”.

Em duas ocasiões neste ano, Biden ameaçou o Brasil por desrespeito ao meio ambiente. No primeiro debate com Trump, em setembro, ele disse:

“A Floresta Amazônica está sendo destruída, arrancada. Mais gás carbônico é absorvido ali do que todo carbono emitido pelos EUA. Tentarei ter a certeza de fazer com que os países ao redor do mundo levantem US$ 20 bilhões e digam (ao Brasil): ‘Aqui estão US$ 20 bilhões, pare de devastar a floresta. Se você não parar, vai enfrentar consequências econômicas significativas”.

Em março, em entrevista por e-mail à revista Americas Quaterly, Biden foi ameaçador ao responder sobre a política ambiental do Brasil:

“Os incêndios que atingiram a Amazônia no verão passado (2019) foram devastadores e provocaram uma ação global para frear a destruição e ajudar no reflorestamento antes que seja tarde demais. O presidente Bolsonaro deve saber que, se o Brasil falhar em ser o guardião responsável da floresta amazônica, o meu governo reunirá o mundo para garantir que o meio ambiente fique protegido”, afirmou.

O Brasil tem um histórico de sucesso na redução de desmatamento na Amazônia. Em 2004 e 2005, foi desmatada uma área de floresta na Amazônia equivalente ao território inteiro de uma Croácia ou duas vezes o tamanho da Bélgica. As ações tanto do governo como da iniciativa privada, no entanto, fizeram esse desmatamento cair 75% já em 2009. Um dos responsáveis foi a moratória da soja, um acordo empresarial pelo qual as maiores exportadoras se recusavam a comprar grãos de áreas desmatadas ilegalmente.

Depois disso, o Brasil virou símbolo internacional de sucesso no combate ao desmatamento e controle de emissão de gases poluentes até 2019. Nos dois anos de Bolsonaro como presidente e Salles como ministro, o Brasil teve os maiores índices de desmatamento desde 2008 e devastou área equivalente ao estado de Israel. A situação hoje é tão crítica que marcas brasileiras estão sendo boicotadas no Exterior e até os bancos firmaram acordo para negar empréstimos para desmatadores. Nenhuma dessas ações, porém, tem a força de execução e a influência do governo brasileiro. Por isso, a pressão americana será sobre Bolsonaro.

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