Peso de materiais humanos supera o da vida na Terra

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Se a emissão de gases na atmosfera, responsável pela maior concentração vista por aqui em 800 mil anos, e mudanças climáticas não são suficientes para que muitos se convençam do papel de homens e mulheres na trajetória do planeta Terra, saber que a massa de itens produzidos pela espécie ultrapassou a de todas as criaturas vivas presentes nele pode, ao menos, dar uma boa pista disso. É o que indica um novo estudo publicado pelo Instituto Weizmann de Ciência, Israel.

Pesquisadores têm usado, há algum tempo, o termo Antropoceno para descrever o período mais recente da História, em que atividades humanas começaram a ter impacto significativo em nosso lar. Por exemplo, só para se ter uma ideia, semanalmente, a adição de novos materiais, como prédios, estradas, carros e afins, equivale ao peso dos 8 bilhões de habitantes espalhados pelos cinco continentes – o que, claro, afeta o equilíbrio dos biomas.

Ron Milo, biólogo de sistemas, e seus colegas sintetizaram estimativas anteriores da biomassa de plantas vivas para cada ano entre 1900 e 2017, que representam 90% de todos os seres vivos, cujos dados foram baseados em pesquisas de campo e modelagem computacional.

A partir de 1990, dados de satélites foram incluídos no levantamento. Além disso, a massa de outros organismos, de bactérias a baleias, contabilizada em 2018, se juntou à de humanos (0,01% do total) e de todo o resto. O resultado, como era de se esperar, é espantoso.

Em 1900, tudo o que era produzido por pessoas somava apenas 3% do total, algo que dobrou a cada 20 anos, de acordo com a equipe, em entrevista à Nature. Por fim, a biomassa total diminuiu gradualmente desde 1900 para cerca de 1.100 bilhões de toneladas, por causa do desmatamento e outros motivos. Assim, neste ano, o “artificial” chegou ao pódio da existência.

Olhando a vida pelos olhos de um cubo de um pneu

Com uma variação de cerca de seis anos, o momento exato em que isso ocorreu (ou ocorrerá) depende se a biomassa é contada com ou sem água; na segunda hipótese, permanecerá maior que a de materiais humanos até 2037, mais ou menos. De qualquer modo, os pesquisadores afirmam que árvores e arbustos no mundo já pesam menos que nossos produtos. Aliás, apenas o plástico responde pelo dobro do total de todos os animais.

Mais do que preocupante, a informação exige estudos detalhados, já que não leva em consideração a toxicidade de várias substâncias nem o impacto ambiental exercido por estruturas em determinados locais. “Não é que a infraestrutura em si seja ruim. É como a produzimos que é o problema”, destaca Eduardo Brondizio, antropólogo ambiental da Universidade de Indiana.

Entretanto, dependendo da inovação tecnológica aplicada, a possibilidade de evitar que o planeta entre em colapso definitivo não está fora de cogitação, indica Xuemei Bai, que estuda sustentabilidade urbana na Universidade Nacional da Austrália. “Estou esperançoso”, ressalta o especialista.